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Deception

18 de Fevereiro de 2006 por Oversleep

Deception

O nosso dicionário não tem uma palavra mais apropriada para este termo, “Deception,” usualmente utilizado na linguagem universal do Poker. Engano, mentira, esconder e ocultar, talvez seja um pouco de tudo isto o tema deste artigo.

Numa abordagem simplista, podemos dizer que a essência do Poker é fazer bet/raise quando temos uma mão forte e fazer check/fold quando temos uma mão fraca. Ora, é trivial perceber que, se seguirmos esta abordagem de forma rígida e metódica, corremos um grande risco de nos tornarmos num “robot” previsível e, acima de tudo, completamente explorável.

Para entendermos um pouco melhor a importância do factor Deception, vamos começar por invocar o Teorema Fundamental do Poker (Sklansky): “Sempre que os teus adversários jogam as suas mãos de forma diferente da que jogariam no caso de poderem ver as tuas cartas tu ganhas e sempre que jogam da mesma forma que jogariam caso pudessem ver as tuas cartas tu perdes”. Resumidamente este teorema diz-nos que quando tu jogas de uma forma em que permites ao teu adversário saber o que tens, isso te custa caro. Fácil de perceber não é? Quando ele sabe o que tens, não irá cometer erros. Ora se ele não cometer erros não irás ganhar fichas/dinheiro, um problema portanto, e aqui entra o tema deste artigo, Deception.

Quando estamos a falar de “esconder” a tua mão ou induzir em erro o teu adversário, certamente te vêm logo à mente técnicas e movimentos que certamente utilizas com regularidade, como slowplays, bluffs, semi-bluffs, floats ou check-raises, entre outros, todos eles movimentos onde estás a actuar de forma oposta ou diferente do que “deverias” fazer e, dessa forma, a “esconder” a tua mão, tudo isto é Deception.

Isto tem um custo e tens obviamente que encontrar a melhor forma possível de equilibrar entre o factor ocultar a tua mão e o factor maximizar lucros/minimizar perdas.
É uma falha de muitos jogadores tornarem-se demasiado previsíveis em certos spots. Vamos colocar-nos numa mesa com jogadores pensadores, regulares ganhadores e abordar alguns exemplos interessantes, onde fugir das abordagens mais standard pode ser importantíssimo. Por exemplo, é senso comum que AK é uma mão onde deves praticamente sempre fazer re-raise. É uma mão que apenas “está mal” contra AA e KK, está à frente de todas as outras mãos e em situação de coin flip (50%/50%) contra todos os outros pares que não AA ou KK, é definitivamente uma mão Premium muito forte e, dessa forma, queres escalar o pote, paralelamente ao facto de pretenderes também jogar contra um número reduzido de adversários. São tudo argumentos legítimos para um “normal” re-raise com esta mão. Coloquemo-nos numa mesa de middle/highstakes com jogadores pensadores, regulares ganhadores (todo um contexto apropriado a esta abordagem “alternativa” que, pelo contrário, é totalmente desaconselhada em níveis baixos): estás na Big Blind após um raise do jogador na Small Blind. Sim, neste spot a jogada mais habitual/standard é fazer re-raise. Digamos que optavas por esta solução 100% das vezes neste spot. Vamos passar a fazer re-raise uns 80/85% das vezes e a incluir 15 a 20% das vezes onde fazemos apenas call. Claramente tem algumas desvantagens, mas nas situações onde incluíres este “desvio” do standard e encaixares um dos teus pares no flop, ou até numa street seguinte, vais ter a tua mão completamente escondida. Vamos dar como exemplo um flop A22; vai ser difícil o teu adversário “pensador” não jogar para toda a stack com AQ, AJ ou quem sabe até com A10, “sabendo ele” que tu com AQ ou AK farias certamente re-raise em posição a um roubo normal SB-BB, tudo poderia ser diferente se após re-raise tivesses demonstrado força em todas as streets, onde basicamente o teu range ficaria bastante mais reduzido a AK, AA, talvez AQ ou algumas vezes air total/bluffs, isto é, tornar-se-ia mais difícil seres pago num pote grande com as mãos acima mencionadas.

Passando a um outro exemplo, vamos imaginar que fizeste call em posição a um bom jogador que, apesar da sua solidez, tende a abandonar mãos médias algo facilmente perante pressão. Fazes call à sua continuation bet num flop Ah7h2c com 77 e, após o turn trazer um 9d, o teu adversário continua a apostar. Aqui tens mais do que a certeza que o teu adversário tem um Ás, o que na realidade parece ser uma boa razão para fazer raise neste turn, mas na realidade se o fizeres estarás a representar imensa força e é bem possível que ele abandone mãos tão fortes como AJ, A10 ou até AQ, já que pensa que podes/deves ter no mínimo 2 pares/trio para fazeres raise no turn a um jogador que apostou 2 streets sem posição contra ti. Sabendo que ele não apostaria praticamente nunca um flush draw no flop e turn, estás descansado sabendo que ele não tem copas, e se vier uma copa no river não será uma scare card para ti. Sendo assim, se calhar é uma opção melhor contra este tipo de jogador fazer apenas call, já que, para além de o manteres na mão com uma grande parte do range que faria fold no turn a um raise, ele vai ter dificuldades acrescidas em fazer fold a uma aposta tua no river se não bater o flush do flop (situação menos boa para ti neste caso, já que não vais extrair mais nada da mão dele, mas que vale certamente o risco, já que fazendo raise neste turn vais “perde-lo” praticamente sempre). Da mesma forma, num blank river ele faz check e, sabendo tu da informação que tens para trás da mão que ele se está a preparar para fazer check/call com o seu top pair, podes tentar “enganá-lo” e simular aquilo que alguns jogadores fazem quando querem levar um pote “à força”: Bet Pot ou Overbet. Uma boa percentagem das vezes, a linha que tu seguiste vai induzi-lo em erro e parecerá mesmo que estavas em flush draw no flop e no turn e, depois de não bater e fazendo ele check, simulas que estás a tentar roubar o pote com uma aposta muito alta que “ele não pode pagar,” tornando mais fácil para ele pensar que o seu AJ ou AQ é a melhor mão contra o teu “flush draw falhado.” Imaginando a mesma mão contra um jogador fraco e que “não tem o botão de fold,” não necessitaríamos de pensamentos tão profundos e fazer raise, tanto no flop como no turn, seriam movimentos perfeitamente aceitáveis.

Um exemplo mais: tens KK e, numa mesa de 5$/10$, fizeste re-raise para 120$ nas blinds a um raise de 35$ do botão, e tiveste um call. Vem um flop K75 rainbow e estás perante um dilema: tens uma mão tão forte que achas que não vais conseguir extrair nada do teu adversário. Ora, não vamos desesperar, vamos personificar uma mão como 99 ou AQ e vamos pensar como vamos transmitir ao nosso adversário que é isso que temos. Vamos mostrar medo, vamos demonstrar que não gostamos deste flop. Num pote de aproximadamente 240$, e com 100 bb’s para trás, obviamente a pior opção é aquela que parece mais forte: uma cbet de 160$ a 190$, que seria a aposta mais “habitual” for value com mãos como AA, AK ou KK por exemplo. A minha sugestão é que neste spot faças um mix decente entre Opção 1: timebank/check (timming tells são muito importantes à medida que sobes de limites); Opção 2: Cbet de 80$ a 110$; Opção 3: Cbet de 230$ a 270$. Isto é, misturares neste spot check/cbet muito baixa/cbet muito alta. Acredita que vais deixar o teu adversário confuso e ele vai imensas vezes pensar que falhaste o flop com AQ ou que estás com medo, com 88, 99, 1010, por exemplo. Se pensares bem nisso, tanto uma aposta muito baixa (parece que não queres gastar muito num flop falhado) como uma aposta muito alta (parece que apostas muito para tentar levar o pote à força e acabar a acção logo ali) podem induzir o teu adversário a pensar que o seu 1010 ou JJ está à frente ou até a fazer-te float ou raise em bluff drawing dead. Imagina que tomaste a opção overbet e que levaste call e que no turn vem um 5, que é uma blank neste spot. Neste momento, ou o teu adversário está em trap com um trio inferior e, aconteça o que acontecer, o dinheiro vai entrar todo na mesa, ou então muito dificilmente vais ganhar mais dinheiro se apostares este turn. Por muito que o teu flop parecesse “bluffy,” apostares neste turn, se bem que tornando a tua mensagem algo “contraditória,” faz tender a tua mão para o lado mais Value de Strong Made Hand. Desta forma, se fizeres check, associando esse factor à tua acção no flop, o teu adversário “vai ter a certeza” que falhaste completamente e vai imensas vezes fazer shove neste turn ou, se fizer check behind, certamente mais vezes te irá pagar uma aposta grande no river.

Poderíamos enunciar muitos outros exemplos onde fazer Mix e Deceive no teu jogo te trará vantagens claras contra bons jogadores como por exemplo jogar de forma semelhante draws/air/value em certos spots, fazer value bets muito thins no river, extraindo valor de mãos que te vão fazer “hero calls” que nunca fariam se não lhes induzisses mãos diferentes das que tens, representar missed flop com cbet flop/check turn ou o oposto check flop/delayed cbet turn, Mix de Bet Sizing em diferentes boards, diferentes texturas contra adversários diferentes, etc. Um sem número de situações onde poderíamos exemplificar a importância do factor Deception, realçando de novo que esta importância cresce paralelamente ao nível dos nossos adversários.

Da mesma forma, indo uns níveis mais além, se estivermos a defrontar adversários de grande nível, poderemos elevar o nível de Deception ao 3º (ou superior) nível de pensamento, onde já sabemos que o nosso adversário “pensa mais além,” e então passamos a representar que estamos a representar! Num determinado contexto, podemos já não estar a representar fraqueza quando estamos fortes, mas sim a representar que estamos a representar força quando estamos na realidade fracos. É muito importante termos a consciência do nível dos nossos adversários.

Para finalizar, como deves ter reparado, em todo o artigo foco o facto deste tipo de pensamentos ter lógica APENAS em níveis médio/altos e contra bons jogadores “pensadores.” É realmente fundamental realçar que a aplicabilidade deste tipo de pensamentos cresce paralelamente aos níveis/limites que jogas. Se jogas 0.25$/0.5$, 0.5$/1$ ou inferior, ou se jogas torneios/sit&gos de 5$ ou 10$, por exemplo, sim, é importante teres estes conhecimentos no teu “arsenal,” mas neste momento ainda não terão uma importância fundamental. Se são estes os limites que jogas, continua no teu Bet, Bet, Bet for Value, percentagens pequenas de slowplays e grandes de Value Bets, percentagem mais reduzida de Bluffs/Semi-Bluffs e joga de forma mais agressiva as tuas mãos fortes, já que, na maioria dos casos, os teus adversários vão-te pagar. Não te preocupes imensamente em “esconder” as tuas mãos, os teus adversários não vão estar a pensar largamente em hand ranges, não vão ter pensamentos de segundo nível, table image, não vão pensar naquilo que estão a representar e na forma como tu vês as mãos deles etc. Irão, isso sim, jogar a força da mão deles e o clássico e básico “Bateu/Não bateu”. Até lá, guarda o mundo “Deceptive” no teu bolso, ele ainda virá a ser-te muito útil, e quando o utilizares, nas doses certas, irá ter certamente resultados positivos no teu EV.

Boa sorte e vemo-nos nas mesas,
Oversleep