Na nossa vida cada um de nós tem características distintas, personalidades diferentes, pequenas particularidades que tornam a nossa forma de ser única.
Ora, no poker, isto não é excepção e, como sabes, existem diferentes perfis/estilos/tipos de jogadores. Em artigos anteriores falei sobre alguns perfis bastante exploráveis, perfis normalmente associados a jogadores perdedores como o Weak Tight ou o Calling Station.
Neste artigo vou abordar dois dos meus perfis preferidos, e para não dizer os únicos que considero vencedores no poker, são eles o LAG e o TAG.
E o que significam estas siglas? Não são mais do que as abreviaturas habitualmente utilizadas para Loose AGressive e Tight AGressive.
Antes de detalhar as vantagens e desvantagens de cada um deles quero esclarecer uma ideia errada que normalmente me apercebo em comentários no seio da nossa comunidade no que se refere a estilos de jogadores. É comum ver jogadores a fazerem referência a estes perfis, quando na realidade apenas se referem à primeira parte de cada um dos perfis, a parte Loose/Tight.
Loose e Tight são características que nos falam sobre o critério de selecção de mãos pré-flop, sobre a quantidade de mãos que um jogador joga, sendo que um jogador Loose joga bastantes mais mãos do que um jogador Tight, jogador este que tem um critério de selecção de mãos pré-flop muito mais restrito.
Ora, a “falácia” comum está na segunda parte destas siglas, o Agressive. Um jogador LAG não é um jogador que joga muitas mãos, é sim um jogador que joga muitas mãos mas de forma agressiva.
Ambos os jogadores com perfil LAG e TAG têm como requesito fundamental jogar as suas mãos de forma agressiva.
Desta forma, Tight/Loose definem o critério de selecção de mãos pré-flop de um jogador e Agressive/Passive definem a forma como jogam essas mãos, sendo que um jogador Agressive joga as mãos muito mais em Raise/Bet e um jogador Passive em Check/Call.
Actualmente uma grande maioria da literatura existente sobre poker aconselha os jogadores iniciados a adoptar uma estratégia TAG. Concordo plenamente com este encaminhamento para jogadores inexperientes e para jogos em limites baixos. TAG poker permite-te passar ao lado de situações incómodas e decisões difíceis que um LAG tem em muita maior quantidade.
Devido ao facto de um TAG jogar menos mãos pré-flop, as suas leituras pós-flop ficam bastante mais facilitadas do que para um LAG, isto porque o LAG, jogando mais mãos consequentemente joga piores mãos e desta forma isto reflecte-se no playback que os seus adversários lhe fazem.
Por exemplo num mesmo contexto de uma mão contra um jogador bom/razoável minimamente atento, pode ser correcto para um TAG fazer fold de AsJs num flop Jh9d7c com "heavy action" por parte do seu adversário quando muito provavelmente um LAG na mesma situação pode estar a fazer um mau fold, isto é, estar a foldar a melhor mão.
Este é um dado com grande relevância para um LAG, este perfil de jogador vai sofrer "playback" muito mais vezes tendo o seu adversário muitas vezes mãos bem mais frágeis do que no mesmo contexto teria contra um jogador TAG, isto devido à nossa imagem.
Olhando a este factor pelo lado positivo, um TAG tem probabilidades maiores de sucesso em roubos de blinds ou nas suas continuation bets em flops falhados por exemplo já que normalmente os seus adversários vão-lhe dar crédito e não lhe vão fazer "playback" sem algo forte.
Um LAG vai ter muitas mais dificuldades em ter sucesso com continuation bets já que vai sofrer bastante floating e levar "playback" mais vezes do que um TAG iria.
Aqui o meu conselho para um LAG é que é certamente aceitável incluir uma boa dose de "second barrels", sendo esta uma ferramenta que poderá numa quantidade razoavelmente grande fazer com que os nossos adversários nos dêm crédito por algo forte, crédito esse que a nossa continuation bet por si só não conseguiu.
Sabendo isto, jogando um jogo LAG há uma tendência muito maior para nos fazerem "playback" com mãos mais frágeis, mãos que em condições normais não seriam tão fortes quanto isso são aqui, muitas vezes, mãos que devemos jogar com grande agressividade como se de mãos mais fortes se tratassem, suportando, por exemplo, o nosso jogo num entendimento muito profundo do conceito de fold equity.
Cabe-nos a nós perceber quão frágeis estão os nossos adversários baseados na percepção que pensamos que eles têm de nós, baseados na imagem que pensamos que eles têm de nós.
Sendo assim é muito importante para um jogador LAG basear muito do seu jogo na qualidade das leituras/análises que faz dos seus adversários.
Há então uma característica muito importante de "confrontro" entre estes dois perfis.
Um LAG obtem muita mais acção nas suas mãos fortes do que um TAG. É habitual um TAG ficar por vezes frustrado por ver que com o seu KK apenas conseguiu levar as blinds e não obteve mais acção.
A imagem que o LAG tem pode fazer com que perca mais potes pequenos do que um TAG normalmente perde, mas de facto, é muito mais fácil para um LAG conseguir gerar potes enormes com os seus "monstros", já que, pela sua imagem, gera imensas vezes pensamentos "ele não tem nada" no seu adversário.
Vejo muitas vezes jogadores a dizer que adoram jogar suited connectors quando muitas vezes não tem solidez pós-flop suficiente para saberem jogar esse tipo de mãos em tudo que não sejam situações onde essa mão realmente bate forte no flop.
Pessoalmente gosto de um estilo de catalogação algo complexa, já que tem bastantes switching gears e está constantemente adaptado aos jogadores adversários. Agrada-me bastante uma abordagem maioritariamente LAG com inclusão de "momentos" TAG em situações/contextos específicos.
De qualquer das formas não aconselho a um jogador adoptar uma estratégia LAG sem uma confiança muito grande no seu jogo. É deveras difícil jogar bom Loose Aggressive Poker.
É muito fácil jogar mal um estilo LAG e cometer erros que serão um bom prenúncio para perder no poker.
Um bom LAG sabe abandonar uma mão quando assim tem que ser, sabe ler a sua mesa e os seus adversários superiormente, sabe quando deve e não deve fazer continuation bet e sabe também que slowplay é algo que só deve usar em casos muito raros, já que, pelo facto de levar tantas vezes playback, se jogar forte as suas mãos fortes, vai imensas vezes conseguir criar potes enormes.
A nível de torneios por exemplo gosto pessoalmente de "disponibilizar" uma percentagem da minha stack, normalmente 20 a 25% da mesma em fases iniciais dos torneios para fazer algumas jogadas mais "especulativas" e loose que me podem colocar numa posição muito confortável para a partir dai "controlar" a mesa.
Uma das vantagens que sinto em torneios nesta abordagem mais LAG é que é comum atingir mais vezes os primeiros postos na classificação de um torneio, durante grande parte do mesmo, quando numa abordagem mais TAG a nossa stack anda sempre mais aproximada à média do torneio, estando o nosso sucesso no torneio também algo associado à quantidade de mãos boas que temos. Para além disso, são preciosas as vantagens que conseguimos retirar de dar uma "má imagem" e posteriormente utilizar essa imagem a nosso favor.
Concluindo, se para ti uma ou mais das seguintes premissas são verdade, deves basear grande parte do teu jogo num estilo TAG:
. Jogas há pouco tempo e/ou tens ainda pouca experiência;
. Não tens confiança no teu jogo pós-flop;
. Sentes dificuldades em jogar "player oriented poker", isto é, não sentes ainda no teu jogo grandes capacidades de colocação dos teus adversários em ranges de mãos, atribuição de perfis ou utilização de informação de mãos anteriores por exemplo;
. Jogas habitualmente em jogos muito loose (é senso comum que basearmos o nosso jogo num estilo maioritariamente oposto ao dos nossos oponentes é extremamente positivo);
Se, pelo contrário, sentes que:
. Já tens uma experiência muito sólida no jogo e dominas muito bem uma abordagem TAG;
. Constantemente consegues "overplay" os teus oponentes pós-flop;
. Sentes muita confiança nas leituras que tens dos teus adversários, colocando-os constantemente em ranges de mãos adequados e consegues jogar um poker onde utilizas com grande relevância todas as variáveis que tens disponíveis e não apenas as duas cartas que tens na mão, quer pré-flop quer pós-flop;
. Dominas e utilizas perfeitamente (teoria e prática) conceitos tão fundamentais como fold equity, floating, implied odds, position play ou semi-bluffing por exemplo (obviamente conceitos muito importantes do ponto de vista genérico, não só para este estilo particular, mas que têm uma importância fundamental para um jogador LAG);
Então penso que tens reunidas as condições para utilizares com sucesso uma abordagem LAG.
Repito e reforço, não queiras ser um jogador LAG porque "viste na televisão" um jogador profissional a fazer re-raise com 85s e a ser admirado por todos pela sua forma destemida de jogar, aquilo que ao olhar mais desatento pode parecer uma jogada "louca" tem, muitas vezes, um contexto e um sentido que um jogador mais inexperiente poderá não compreender.
AGgressive? Sim, definitivamente.
Loose ou Tight? Que este artigo te ajude a escolher.
Boa sorte, e vemo-nos nas mesas,
Oversleep.