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WPT Diamond Classics: Facing Two Sharks

16 de Janeiro de 2006 por Equipa PokerEuropa

WPT Diamond Classics: Facing Two Sharks

Este mês pedimos a três dos jogadores nacionais de Poker cujas caras são mais conhecidas dos Telespectadores Portugueses, Filipa “flewpt” Lemos, Marco “Shadow88” Hélio e João Manzarra, que nos comentassem uma jogada da 5ª Temporada do World Poker Tour, um dos circuitos de maior renome no Poker Mundial e que constitui também um dos formatos de maior sucesso entre os programas televisivos de Poker.

Estamos no Bellagio, em Las Vegas, na Final Table do Fifth Annual Five Diamond World Poker Classic, com apenas 3 jogadores ainda em jogo. O amador Jim Hanna está perante “dois monstros” da cena mundial de Poker, Daniel Negreanu e Joe Hachem, mas nem por isso tem deixado de fazer estragos; nas últimas mãos conseguiu arrebatar 5 Milhões de fichas a Negreanu e acaba de ganhar um Pote de 3,5 Milhões de fichas a Hachem. Encontra-se assim na condição de chipleader, com sensivelmente 9,5 Milhões, enquanto Joe Hachem contabiliza 6,2 Milhões e Negreanu, depois de ter liderado a contagem durante bastante tempo, se encontra reduzido a 1,6 Milhões.

Com Antes de 15.000 e Blinds em 80K/160K, Hachem está no Botão, recebe 4h4c e faz raise para 450.000 fichas; Negreanu, na Small Blind, tem KsTc e resolve, depois de algum tempo de reflexão, apostar o restante das suas fichas; Joe Hanna está na Big Blind com TsTh e, depois de alguma consideração, acaba por fazer fold da sua mão. Hachem acaba por decidir “entrar na corrida” contra as “overcards” de Negreanu (na prática acaba por partir à frente, já que Hanna largou 2 dos outs de Negreanu), o seu “small pocket pair” acaba por aguentar-se e elimina assim o canadiano, abrindo caminho para um Heads-Up final com o jogador amador, com uma desvantagem de apenas 1,5 Milhões de fichas. O que acham desta jogada? Justifica-se o movimento de Negreanu? Acham o call de Hachem demasiado arriscado ou o facto do australiano estar à beira de se juntar ao restrito grupo de Campeões do Mundo que ostentam igualmente títulos do WPT justifica o risco? E que dizer do fold de Jim Hanna? Como teriam procedido no seu lugar?

 

 Filipa “flewpt” Lemos

A jogada em análise parece-me perfeitamente “normal/standard” até à BB, pois em short handed um pocket pair de TT é uma vantagem, até diria uma grande vantagem. Mais adiante tentarei apreciar a razão deste fold.

O movimento do Daniel Negreanu, tendo em conta a sua stack, pois com 10 BB’s e em three handed não podia ser demasiado selectivo da mão a jogar, e possivelmente pensou que o Joe Hachem, que ele conhece muito bem, poderia ter feito raise, quer a tentar roubar, quer com Ax, e que ainda tinha margem para foldar.
 
O call do Joe Hachem, nunca deixará de ser arriscado. Mas tendo em conta o rombo que o call poderia provocar na sua stack, juntando-se a isto o atrás referido relativamente ao movimento do Negreanu e acrescentando o facto de poder efectuar o heads up com um jogador amador para um titulo tão apetecível, quase que o call em questão passou de arriscado a obrigatório/imperativo.

O fold de Jim Hanna, na minha humilde opinião, deveu-se ao seu amadorismo, pois o medo apoderou-se dele ao antever uma jogada a três, retirando-lhe uma das principais “regras” do poker que é jogar para ganhar, o que implica arriscar e não ter medo de perder. Ou seja, a possibilidade de disputar o heads up de um torneio desta importância retraiu, pois o seu call ao all in do Negreanu seria ainda precedido pelo movimento do Joe Hachem, que não podemos esquecer fez raise inicialmente, o que levou a temer que o mesmo fizesse all in por cima. Se a tudo isto juntarmos que Jim Hanna era o chipleader com uma vantagem de 3,3 milhões sobre o Joe Hachem, e um pocket pair de TT a três é “quase” um canhão, o fold pode até considerar-se mau, o que levou o Daniel Negreanu, quando ouviu Jim Hanna a dizer o que tinha largado, a soltar uma gargalhada e a dizer com alguma tristeza/estranheza que “era engraçado para ele”.

Agora a parte difícil, como teria procedido no lugar de Jim Hanna; embora seja uma jogadora muito tight, mas levando em consideração as stacks faria all in, pois desse modo limitaria as eventuais perdas a cerca de 1/9 da minha e eliminaria a quase totalidade do range mãos que me pagariam, ou seja, apenas teria call do Joe Hachem com AA, KK ou eventualmente QQ. Ficaria com a ideia que seria uma corrida contra duas overcards, o que na verdade apenas seria uma. Com este movimento tinha duas saídas, a primeira eliminar o Daniel Negreanu e chegar ao heads up com cerca do dobro das fichas do Joe Hachem, na segunda perder a mão mas continuar a ser a chipleader.

Marco “Shadow88” Hélio

Antes de mais, vejamos a decisão de Negreanu: Com 1,6M de stack, e já com 95k à sua conta no pote, The Kid decide-se pelo all in. Certo ou errado?

Na minha opinião decisão acertada de Negreanu. O raise de Hachem obriga o canadiano a colocar em jogo cerca de 1/3 da sua stack. No caso de fazer apenas um call a Hachem, Negreanu ficaria reduzido a cerca de 1,1M e sem margem de manobra para poder jogar depois a board contra os mais de 5 milhões de fichas de Hachem. Logo, Negreanu só tinha duas hipóteses: ou jogar como jogou ou foldar a mão. Até porque, com apenas 3 jogadores no torneio, o raise de Hachem parece claramente feito em busca de roubar as blinds (Negreanu estava shortstacked e Hanna, apesar de ser o chipleader, tinha acabado de ganhar um pote considerável e, por esse motivo, apenas com uma boa mão entraria de novo em “conflito”).

Sobre o call de Hachem ao all in de Negreanu: Entendo que é um call perfeitamente aceitável. O call deixa Hachem ainda com 4,6M de fichas na sua stack, o que não coloca em causa o torneio para o jogador australiano. E desde logo o australiano terá colocado Negreanu em duas overcards, o que o deixaria numa corrida em que partiria de posição razoável para vencer. E depois tinha ainda o aliciante de, se vencesse a mão, ficar em excelente posição para discutir o título em HU com Hanna. Aliás, parece-me que nesta mão, os movimentos de Negreanu e Hachem são ambos perfeitamente legítimos e fáceis de aceitar.

Até porque pelo meio, e neste caso pelo meio é mesmo a expressão certa, está um fold de Hanna. Esta já é uma decisão mais complicada de explicar. Creio que salta à vista que o chipleader não se quis envolver num pote a três e estava claro que, depois do all in de Negreanu, dificilmente Hachem (o raiser inicial) largaria a mão por “apenas” mais 1,2M de fichas. Mas Hanna podia ter jogado de outra forma…

Eu teria feito um raise ao all in de Negreanu. Uma bet a rondar os 4,5M provavelmente deixaria Hachem sem grandes condições para fazer um call. Creio que foi sobretudo uma jogada bastante conservadora por parte de Hanna e à procura dum HU e consequentemente de mais uns $$$$ no bolso.

João Manzarra

Permitam-me baptizar os jogadores nesta jogada entregando a cada um deles um papel do filme de Clint Eastwood “O Bom, o Mau e o Vilão”. O rapaz da mosca será o Bom, o senhor amador o Mau e o garoto com cabelo de palha o Vilão.
 
Na posição do botão, o Moscas, com pocket 4s faz a meu ver o movimento correcto, não tem tido oportunidade de jogar muitas mãos, tem uma stack confortável e encontrando-se numa posição de vantagem faz uma tribet, avança com 450K. Regular, nada a apontar.

É a vez do nosso vilão mostrar o que vale, a stack é curta (cerca de 10 BB’s), tem vindo a perder muitas mãos, K10 não é um monstro mas não é um mau bilhete para uma corrida, principalmente se a mão do adversário for um par baixo. Mais uma vez não teme o senhor amador, sabe que desta vez, mesmo na posição da blind, só lhe fará call com uma grande mão. Com apenas uma bala no revólver, dispara.
 
O senhor amador, que até então tinha jogado bonito, afasta-se cobardemente de uma grande mão. O all in do palhas é considerável mas não intimidatório, cerca de 1/7 da sua stack. Calculo que se o Moscas não tivesse entrado no campo de tiro o call seria evidente. Porquê este receio? O interesse em eliminar o Vilão é mútuo, entrar na corrida com pocket 10s é aumentar as hipóteses de um tiro certeiro e estar presente no duelo final. Na eventualidade de um enorme derramamento de sangue, o pior que lhe poderia acontecer era passar para as 3,3 milhões de fichas, altamente “geríveis,” seria um grande rombo mas não o fim. Mau, muito mau.
 
Como não poderia deixar de ser, o bom da história, aceita o duelo e num movimento heróico, desvia-se da bala. Com o Vilão já sem balas e sem sítio por onde escapar, resta algemá-lo e levá-lo para as quadras.
 
No fim tudo acaba bem, prende-se o Vilão, foge o Mau e o Bom sorri olhando para o horizonte, cheio da guita o malandro.